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Editoria: Psiquiatria

Paciente idoso ficou confuso de repente: é delirium?

Delirium no idoso: confusão aguda e flutuante, forma hipoativa, 4AT, diferenças com demência, depressão e psicose, causas e uso de antipsicóticos.

Por Equipe CENBRAPEquipe editorial

Publicado em 6 min de leitura

Médica de jaleco com prancheta aponta para o relógio na parede do quarto de hospital enquanto conversa com um paciente idoso sentado no leito.

Um homem de 78 anos, internado por pneumonia, passa a responder devagar, erra o mês e dorme durante a conversa. À noite, tenta levantar sem ajuda e afirma que precisa ir trabalhar. A família diz que ele estava conversando normalmente dois dias antes. A mudança pode parecer demência, depressão, psicose ou “confusão da idade”. O dado que reorganiza o caso é outro: houve alteração aguda e flutuante da atenção e da cognição. Até prova em contrário, essa apresentação exige investigação de delirium. [1][2][5]

Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda decorrente de uma condição clínica, efeito ou retirada de substância, exposição medicamentosa ou combinação de fatores. O diagnóstico é clínico. A pergunta central não é apenas se o paciente está desorientado, mas se atenção, consciência e cognição mudaram em horas ou dias e oscilam ao longo do período. [1][5]

O delirium hipoativo é o que mais escapa

Agitação chama atenção. Lentificação, sonolência, pouca fala, menor mobilidade, retraimento e redução do apetite podem ser atribuídos a cansaço, depressão ou demência. A diretriz NICE orienta vigilância especial para essa forma hipoativa, frequentemente não reconhecida. Há também apresentações hiperativas e mistas, nas quais agitação e hipoatividade se alternam. [1][4][5]

A ausência de agitação não reduz a urgência diagnóstica. Uma pessoa que “ficou quieta demais” depois de cirurgia, infecção ou mudança de medicação merece a mesma reconstrução temporal de quem tenta arrancar acessos. A comparação com o funcionamento habitual depende de familiares, cuidadores, prontuário e equipe de diferentes turnos.

Quatro perguntas abrem a avaliação

1. Quando mudou? Delirium aparece em horas ou dias. Demência costuma evoluir de forma insidiosa, embora delirium possa ocorrer sobre demência. Se não for possível separar as duas condições, a recomendação é manejar primeiro o delirium. [1]

2. A atenção está comprometida? Dificuldade de acompanhar uma conversa, manter foco, obedecer a comandos ou recitar meses em ordem inversa pesa mais do que uma pergunta isolada de orientação. Desatenção é um eixo do diagnóstico. [3][5]

3. O quadro flutua? O paciente pode parecer melhor pela manhã e pior à noite, ou alternar sonolência e inquietação no mesmo dia. Uma avaliação única normal não apaga a história de mudança aguda descrita pela família ou pela enfermagem. [1][2]

4. Existe explicação fisiológica plausível? Infecção, hipóxia, dor, retenção urinária, constipação, desidratação, distúrbios metabólicos, falência orgânica, pós-operatório, intoxicação, abstinência e medicamentos são exemplos. Em idosos frágeis, vários precipitantes pequenos podem agir juntos. A investigação precisa ser guiada por história, exame e gravidade, não por um painel fixo. [2][5]

Onde entra o 4AT

O 4AT organiza quatro domínios: nível de alerta, breve avaliação cognitiva, atenção e mudança aguda ou curso flutuante. É rápido e pode apoiar o reconhecimento em ambientes não críticos. O NICE o recomenda quando existem indicadores de delirium. Em terapia intensiva ou recuperação pós-anestésica, indica CAM-ICU ou ICDSC. [1][3]

Um escore compatível aumenta a suspeita, mas não define sozinho a causa, não substitui avaliação clínica e não deve atrasar estabilização. Alteração cognitiva sem mudança aguda pode sugerir outro transtorno; resultado baixo não encerra o caso se a história e a observação mostram flutuação. A ferramenta estrutura a coleta. O diagnóstico continua exigindo integração. [1][3]

Diferenciar sem criar falsas dicotomias

Delirium e demência: demência aumenta a vulnerabilidade e pode coexistir com delirium. Procure mudança em relação ao padrão prévio, desatenção nova e oscilação. Não atribua toda alteração ao diagnóstico cognitivo conhecido. [1][2]

Delirium e depressão: retraimento, pouca fala e lentificação podem ocorrer nas duas condições. Início abrupto, atenção muito variável, alteração do nível de alerta e flutuação intradiária favorecem delirium. Humor e história longitudinal continuam relevantes, mas não substituem a busca de causa aguda. [5]

Delirium e psicose: alucinações e ideias persecutórias podem surgir no delirium. Alteração de atenção, consciência e temporalidade aguda desloca a prioridade para causas clínicas, tóxicas e medicamentosas. Um primeiro quadro psicótico em idade avançada exige cautela antes de receber rótulo psiquiátrico primário. [2][5]

A causa costuma ser multifatorial

Organize a busca em blocos: sinais vitais e oxigenação; dor; foco infeccioso; estado volêmico e ingestão; glicemia e distúrbios metabólicos; função renal e hepática quando pertinente; retenção urinária e constipação; evento neurológico quando houver pistas; álcool e outras substâncias; cirurgia ou anestesia recentes; sono, imobilidade e privação sensorial. [2][5]

A revisão medicamentosa deve reconstruir o que entrou, saiu ou mudou. Sedativos, fármacos com carga anticolinérgica, opioides, corticosteroides e polifarmácia podem contribuir em contextos específicos. Suspensão abrupta de álcool ou benzodiazepínicos também muda o manejo. O objetivo não é culpar um medicamento por associação temporal simples, mas avaliar plausibilidade, dose, interação, função orgânica e alternativas. [2][4][5]

Trate causas e reduza a carga de delirium

O manejo começa pela condição precipitante e por medidas de suporte. Reorientação frequente, ambiente reconhecível, presença de relógio e calendário, participação da família, correção de déficit visual e auditivo, hidratação e nutrição adequadas, mobilização segura, manejo da dor e proteção do sono compõem uma estratégia multicomponente. [1][2][6]

Essas medidas não são “apenas conforto”. Intervenções não farmacológicas multicomponentes reduzem a ocorrência de delirium em pessoas hospitalizadas fora da UTI. Para quem já está em delirium, também ajudam a diminuir estímulos desorganizadores e a corrigir fatores que prolongam o quadro, embora a resposta dependa da causa e da vulnerabilidade. [6]

Medicação não é tratamento de rotina do delirium

Antipsicóticos não corrigem a etiologia nem demonstram benefício consistente sobre duração ou mortalidade. Podem ser considerados, por curto período e na menor dose clinicamente apropriada, quando há sofrimento intenso ou risco relevante para o próprio paciente ou terceiros, depois de medidas verbais e não verbais de desescalada e enquanto as causas são tratadas. A decisão exige atenção a QT, efeitos extrapiramidais, sedação, aspiração, quedas, doença de Parkinson e demência com corpos de Lewy. [1][4][7]

Benzodiazepínicos não são primeira linha para agitação associada ao delirium e podem agravar sedação e desorganização. Há exceções clínicas específicas, especialmente abstinência de álcool ou benzodiazepínicos, nas quais o tratamento segue protocolo próprio. Generalizar essa exceção para qualquer delirium é inseguro. [4][5]

A alta também precisa de plano

A melhora pode ser gradual. Antes da alta, registre diagnóstico, causas prováveis, medicamentos alterados, cognição e função atuais, necessidade de supervisão, sinais de retorno e responsável pelo seguimento. Família e atenção primária precisam saber que a recuperação pode oscilar e que persistência de déficit cognitivo merece reavaliação. [1][2]

No caso inicial, a pneumonia era parte da explicação, mas não toda. Hipóxia leve, privação de sono, retenção urinária e um sedativo recém-prescrito somavam carga. A conduta foi tratar os precipitantes, retirar o que não era necessário, mobilizar com segurança, corrigir privação sensorial e envolver a família. O 4AT ajudou a documentar o quadro, mas o raciocínio clínico mostrou por que ele havia surgido.

Delirium deve ser entendido como uma mudança aguda que sinaliza doença ou descompensação. Reconhecer a forma silenciosa, perguntar pelo padrão prévio e procurar precipitantes em paralelo costuma ser mais importante do que tentar encaixar rapidamente a pessoa em um único rótulo.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Delirium: prevention, diagnosis and management in hospital and long-term care. CG103. Updated 2023. NICE
  2. Scottish Intercollegiate Guidelines Network. Risk reduction and management of delirium. SIGN 157. 2019. SIGN
  3. MacLullich AMJ et al. 4AT: Rapid Clinical Test for Delirium Detection. Manual and clinical resources. 4AT
  4. American Geriatrics Society Expert Panel. Abstracted Clinical Practice Guideline for Postoperative Delirium in Older Adults. J Am Geriatr Soc. 2015;63:142-150. PubMed Central
  5. Oh ES, Fong TG, Hshieh TT, Inouye SK. Delirium in Older Persons: Advances in Diagnosis and Treatment. JAMA. 2017;318:1161-1174. DOI
  6. Burton JK et al. Non-pharmacological interventions for preventing delirium in hospitalised non-ICU patients. Cochrane Database Syst Rev. 2021;11:CD013307. DOI
  7. Tomlinson EJ, Schnitker LM, Casey PA. Exploring Antipsychotic Use for Delirium Management in Adults in Hospital, Sub-Acute Rehabilitation and Aged Care Settings. Drugs Aging. 2024;41:455-486. DOI
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Perguntas frequentes

O que é delirium?

Uma síndrome neuropsiquiátrica aguda decorrente de uma condição clínica, efeito ou retirada de substância, exposição medicamentosa ou combinação de fatores. O diagnóstico é clínico e se apoia em alteração de atenção, consciência e cognição que muda em horas ou dias e oscila.

O que é delirium hipoativo?

A forma com lentificação, sonolência, pouca fala, menor mobilidade, retraimento e redução do apetite, frequentemente atribuída a cansaço, depressão ou demência. É a que mais escapa, e a ausência de agitação não reduz a urgência diagnóstica.

Como diferenciar delirium de demência?

Delirium aparece em horas ou dias; demência costuma evoluir de forma insidiosa. As duas podem coexistir: procure mudança em relação ao padrão prévio, desatenção nova e oscilação. Se não for possível separar, maneje primeiro o delirium.

O 4AT confirma o diagnóstico de delirium?

Não. O 4AT avalia alerta, cognição breve, atenção e mudança aguda ou curso flutuante, e apoia o reconhecimento fora da terapia intensiva. Um escore compatível aumenta a suspeita, mas não define a causa nem substitui a avaliação clínica.

Quais são as causas mais comuns de delirium no idoso?

Infecção, hipóxia, dor, retenção urinária, constipação, desidratação, distúrbios metabólicos, falência orgânica, pós-operatório, intoxicação, abstinência e medicamentos. Em idosos frágeis, vários precipitantes pequenos costumam agir juntos.

Antipsicótico trata delirium?

Não como rotina. Antipsicóticos não corrigem a etiologia nem demonstram benefício consistente sobre duração ou mortalidade. Podem ser considerados por curto período, na menor dose apropriada, diante de sofrimento intenso ou risco relevante, depois da desescalada e enquanto as causas são tratadas.

Este conteúdo é educacional e dirigido a profissionais de saúde. Não substitui avaliação clínica, diagnóstico ou prescrição.

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