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Editoria: Psiquiatria

Psicofármacos na prática: o que monitorar antes e depois de iniciar o tratamento

Monitorização de psicofármacos: basal, primeira revisão e exames dirigidos para antidepressivos, antipsicóticos, lítio, valproato e TDAH.

Por Equipe CENBRAPEquipe editorial

Publicado em 10 min de leitura

Médica de jaleco branco sorri enquanto consulta um tablet à mesa do consultório, com papéis e caneta à frente.

A segurança de um psicofármaco não cabe em uma bateria fixa de exames. Ela começa com um ponto de partida clínico bem documentado e continua com revisões capazes de responder a quatro perguntas: o tratamento ajudou, o paciente conseguiu usá-lo, que efeitos surgiram e quais riscos específicos do fármaco precisam ser medidos?

Esse raciocínio evita dois erros frequentes. O primeiro é pedir os mesmos exames para qualquer prescrição. O segundo é considerar o seguimento adequado apenas porque um resultado laboratorial veio normal. Acatisia, ativação, mania, ideação suicida, disfunção sexual, sedação, rash, perda ponderal e sinais de toxicidade por lítio são reconhecidos principalmente pela avaliação clínica.

A ideia central

Monitorização combina efetividade, funcionamento, adesão, eventos adversos, risco e parâmetros físicos ou laboratoriais escolhidos para o paciente e o medicamento. Não existe um protocolo único para todo psicofármaco.[1,2,5,7,9]

O que precisa existir antes da primeira dose

Registre diagnóstico de trabalho, sintomas-alvo, gravidade, prejuízo funcional, risco, tratamentos anteriores e resposta prévia. Revise medicamentos prescritos e não prescritos, álcool e outras substâncias, comorbidades, alergias, interações, possibilidade de gestação e preferências do paciente. Quando uma escala validada for útil, aplique-a antes do início para permitir comparação posterior.[1,2,5,7,9]

Também vale registrar efeitos que já existiam. Peso, sono, função sexual, tremor, movimentos involuntários, pressão arterial e queixas cognitivas podem estar alterados pela própria condição clínica. Sem esse ponto de partida, um problema prévio pode ser atribuído ao medicamento ou um efeito novo pode passar despercebido.[2,5,6]

Um roteiro transversal para a primeira revisão

A primeira consulta de seguimento deve ter data definida no momento da prescrição. Nela, confirme como o medicamento foi realmente utilizado, se houve interrupções, uso em horário diferente, dificuldade de acesso ou associação com outras substâncias. Depois compare sintomas e funcionamento com o ponto de partida, pergunte ativamente por efeitos adversos e reavalie risco.

Eixo Pergunta clínica Registro útil
Efetividade O sintoma-alvo mudou? E a função? Mesma medida basal, quando aplicável
Uso real A dose e o horário foram seguidos? Falhas, barreiras, uso de álcool e substâncias
Tolerabilidade O que apareceu ou piorou? Início, intensidade, impacto e relação temporal
Risco Houve suicídio, ativação, mania, psicose ou piora comportamental? Mudança de suporte, proteção e nível de cuidado
Segurança específica O medicamento exige medida física, exame, ECG ou nível sérico? Resultado, horário da coleta e decisão tomada

Exames devem responder a uma hipótese

Antidepressivos e medicamentos para TDAH não exigem exames laboratoriais universais. O pedido depende de idade, sintomas, comorbidades, interações e perfil do fármaco. Da mesma forma, ECG não é obrigatório para todo antidepressivo, antipsicótico ou estimulante. Ele é dirigido pela bula, pelo medicamento e pelo risco cardiovascular.[2,3,5,9]

Antes de pedir um exame

Escreva qual risco você pretende detectar, quando o resultado mudará a conduta e qual intervalo é sustentado para aquela classe. “Rotina” sem pergunta clínica tende a produzir ruído e falsa sensação de segurança.

Antidepressivos: monitorar cedo, sem inventar uma bateria universal

Em adultos tratados para depressão, o NICE recomenda revisar o tratamento entre duas e quatro semanas. Ao iniciar um antidepressivo, a primeira revisão costuma ocorrer em até duas semanas. Para pessoas de 18 a 25 anos ou quando existe preocupação particular com risco de suicídio, a revisão deve ocorrer em uma semana. O intervalo precisa ser menor se houver piora clínica, agitação, suporte insuficiente ou risco elevado.[1]

A revisão inclui resposta, adesão, efeitos adversos e ideação suicida. A piora clínica, a ativação e a possibilidade de mania ou hipomania precisam ser buscadas de forma ativa. A redação correta não é que antidepressivos “causam suicídio”, mas que o risco e as mudanças comportamentais exigem atenção especial no início e após ajustes.[1,2]

O basal depende do fármaco e do paciente

Antes de prescrever, investigue história de mania ou hipomania, risco suicida, tratamentos prévios, interações e efeitos que o paciente deseja evitar. Função sexual basal é particularmente útil porque a própria depressão pode produzi-la. Peso, pressão arterial, risco de sangramento, hiponatremia, convulsão e prolongamento de QT entram conforme a escolha terapêutica e a história clínica.[2]

Exemplos de monitorização dirigida

Venlafaxina: controlar hipertensão preexistente e acompanhar pressão arterial. Citalopram: avaliar risco de QT e eletrólitos em quem apresenta risco de hipocalemia ou hipomagnesemia. Pessoas idosas, com história de hiponatremia, doença renal, baixo peso ou uso de diurético podem justificar sódio basal e reavaliação precoce.[2,3,4]

Durante redução ou suspensão, monitore sintomas de retirada e possível retorno da depressão. A frequência da revisão deve acompanhar intensidade dos sintomas, velocidade da redução e necessidade de suporte.[1]

Antipsicóticos: o risco metabólico precisa de linha de base e calendário

Antes de iniciar antipsicótico, o NICE recomenda registrar peso, circunferência abdominal, pulso, pressão arterial, glicemia de jejum ou HbA1c, perfil lipídico, prolactina, movimentos anormais, estado nutricional, dieta e atividade física em adultos com psicose ou esquizofrenia. ECG é oferecido quando a bula o exige, quando há risco cardiovascular identificado, história pessoal de doença cardiovascular ou internação.[5]

Depois do início

No cronograma do NICE, o peso é acompanhado semanalmente nas primeiras seis semanas, depois em 12 semanas, um ano e anualmente. Pulso, pressão, glicemia ou HbA1c e lipídios são revistos em 12 semanas, um ano e anualmente. Circunferência abdominal é anual. Resposta, efeitos adversos, movimentos anormais, adesão e saúde física são avaliados regularmente, sobretudo durante a titulação.[5]

A APA usa outro marco: BMI em todas as consultas por seis meses e pelo menos trimestralmente depois; glicemia ou HbA1c e lipídios em quatro meses e, depois, pelo menos anualmente. Por isso, “reavaliar o metabolismo aproximadamente em três a quatro meses, conforme diretriz adotada e risco clínico” é mais fiel do que apresentar um intervalo universal.[6]

Prolactina: há divergência entre diretrizes

O NICE inclui prolactina basal na população da diretriz. A APA prioriza sintomas e dosagem quando indicada pela história, com rastreio clínico mais intenso para fármacos que elevam prolactina. O protocolo escolhido e a bula local precisam estar explícitos.[5,6]

Movimentos também exigem comparação com o basal. Acatisia pode ser confundida com ansiedade ou agitação. A APA recomenda avaliação clínica em cada consulta e instrumento estruturado para discinesia tardia ao menos a cada seis meses em pessoas de alto risco e a cada 12 meses nas demais.[6]

Lítio: nível sérico não substitui a avaliação clínica

Antes de iniciar lítio, registre peso ou BMI e solicite função renal, ureia e eletrólitos incluindo cálcio, função tireoidiana e hemograma. ECG é indicado se houver doença ou fatores de risco cardiovascular. Revise interações, hidratação, perdas hidroeletrolíticas, planejamento reprodutivo e capacidade de reconhecer sinais de toxicidade.[7]

O NICE orienta medir litemia uma semana após o início, uma semana após cada mudança de dose e semanalmente até estabilidade. No primeiro ano, a litemia é trimestral. Depois, passa a semestral, mas permanece trimestral em idosos, pessoas que usam medicamentos que interagem, pacientes com risco renal ou tireoidiano, controle sintomático ou adesão inadequados, complicações ou último nível igual ou superior a 0,8 mmol/L.[7]

Peso ou BMI, função renal, eletrólitos incluindo cálcio e função tireoidiana são revistos a cada seis meses, com maior frequência diante de alterações. Em toda consulta, procure sintomas de neurotoxicidade, como parestesias, ataxia, tremor e prejuízo cognitivo. Eles podem ocorrer mesmo com nível sérico dentro da faixa terapêutica.[7]

Interprete a litemia no contexto

Registre horário da última dose e da coleta, dose atual, função renal, hidratação, doença aguda e medicamentos concomitantes. Uma litemia isolada não exclui toxicidade.[7]

Valproato e lamotrigina

Para valproato, registre peso ou BMI e solicite hemograma e função hepática antes do início. O NICE repete peso, função hepática e hemograma em seis meses e depois anualmente. A bula norte-americana recomenda testes hepáticos em intervalos frequentes, sobretudo nos primeiros seis meses, o que impede transformar “seis meses” em regra universal. Risco reprodutivo deve ser discutido e documentado conforme bula e normas brasileiras vigentes.[7,8]

Antes da lamotrigina, o NICE recomenda hemograma, ureia e eletrólitos e função hepática. Durante a titulação, rash exige contato médico imediato. Nível plasmático não é rotina para valproato ou lamotrigina, salvo suspeita de inefetividade, adesão duvidosa ou toxicidade.[7]

Medicamentos para TDAH: cardiovascular, crescimento e uso problemático

Antes de iniciar medicação para TDAH, reconfirme diagnóstico e necessidade de tratamento. Avalie comorbidades, risco de uso indevido ou desvio, medicamentos atuais, altura, peso, pulso, pressão e história e exame cardiovascular. Quando história e exame são normais e não há medicamento concomitante que aumente risco cardíaco, o NICE não exige ECG rotineiro antes de estimulantes, atomoxetina ou guanfacina.[9]

Pulso e pressão são medidos antes e depois de cada mudança de dose e a cada seis meses. Em crianças e adolescentes, crescimento precisa ser plotado em curva. O NICE orienta altura semestral; o peso varia com a idade. Em adultos, o peso é semestral. Exames de sangue e ECG não são oferecidos de rotina sem indicação clínica.[9]

Com estimulantes, reavalie risco de abuso, uso indevido e dependência; sono, apetite, peso, pressão, pulso, tiques, comportamento e aparecimento de sintomas psicóticos ou maníacos. A revisão global da medicação deve ocorrer pelo menos uma vez ao ano com profissional experiente em TDAH.[9,10]

Vinheta: o exame certo depende da decisão

Situação fictícia

Homem de 37 anos com episódio depressivo inicia antidepressivo. Tem pressão limítrofe, pai com transtorno bipolar e relata disfunção sexual antes da medicação. Não usa diuréticos e não tem história de síncope ou cardiopatia.

O basal útil inclui risco suicida, história de elevação do humor, sintomas-alvo, funcionamento, pressão e função sexual. Se a escolha for venlafaxina, a pressão ganha seguimento específico. Se houver risco de QT ou associação com outro fármaco que prolongue QT, a pergunta cardiovascular muda. Uma bateria laboratorial fixa não substitui essas decisões.[2,3,4]

Na primeira revisão, confirme uso real, resposta, efeitos adversos, ativação, ideação suicida e mudança funcional. O resultado deve terminar em decisão documentada: manter, titular, reduzir, trocar ou interromper, com data da próxima revisão e sinais de contato antecipado.

Checklist prático

Antes de iniciar

  • Confirmar diagnóstico de trabalho, indicação, sintomas-alvo e prejuízo funcional.
  • Registrar risco, tratamentos anteriores, comorbidades, medicamentos, álcool e substâncias.
  • Investigar gestação e planejamento reprodutivo quando pertinente.
  • Registrar efeitos já presentes, incluindo peso, sono, função sexual, movimentos e sintomas cardiovasculares.
  • Solicitar exames e ECG conforme medicamento, risco, diretriz adotada e bula.
  • Combinar a data da primeira revisão e os sinais que exigem contato precoce.

Depois de iniciar ou ajustar

  • Confirmar dose, horário, adesão, acesso e uso concomitante de outras substâncias.
  • Comparar benefício clínico e funcional com o basal.
  • Perguntar ativamente por efeitos adversos e mudanças de risco.
  • Repetir medidas físicas, laboratoriais ou níveis séricos no intervalo da classe.
  • Documentar a decisão e a data de reavaliação.
  • Orientar sinais de alarme e quando procurar atendimento.

Limite deste material

Os cronogramas citados vêm de diretrizes e bulas internacionais. Eles não substituem a bula aprovada pela Anvisa, protocolos institucionais nem a avaliação individual. A população e a fonte de cada intervalo precisam acompanhar a recomendação.

A qualidade do seguimento não depende do número de exames solicitados. Ela depende de saber o que se pretende detectar, quando medir, como interpretar e qual decisão será tomada a partir do resultado.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222. 2022, com atualizações posteriores. NICE
  2. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, et al. CANMAT 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024. PubMed Central
  3. U.S. Food and Drug Administration. CELEXA (citalopram) prescribing information. 2024. FDA
  4. U.S. Food and Drug Administration. Venlafaxine extended-release tablets prescribing information. 2023. FDA
  5. National Institute for Health and Care Excellence. Psychosis and schizophrenia in adults: prevention and management. Clinical guideline CG178. NICE
  6. American Psychiatric Association. The American Psychiatric Association Practice Guideline for the Treatment of Patients With Schizophrenia. 3rd ed. 2020. APA
  7. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management. Clinical guideline CG185. Atualizada em 2025. NICE
  8. U.S. Food and Drug Administration. DEPAKOTE (divalproex sodium) prescribing information. 2024. FDA
  9. National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. NICE guideline NG87. NICE
  10. U.S. Food and Drug Administration. RITALIN (methylphenidate hydrochloride) prescribing information. 2025. FDA

Conteúdo destinado a médicos. A decisão clínica deve considerar a avaliação individual de cada paciente.

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Perguntas frequentes

Existe uma bateria fixa de exames antes de iniciar um psicofármaco?

Não. A monitorização combina efetividade, funcionamento, adesão, eventos adversos, risco e parâmetros físicos ou laboratoriais escolhidos para o paciente e o medicamento. Antidepressivos e medicamentos para TDAH não exigem exames laboratoriais universais.

Quando revisar um paciente que iniciou antidepressivo?

O NICE recomenda revisar entre duas e quatro semanas; ao iniciar, a primeira revisão costuma ocorrer em até duas semanas. Para pessoas de 18 a 25 anos ou com preocupação particular sobre risco de suicídio, em uma semana.

O que registrar antes de iniciar um antipsicótico?

Pelo NICE, em adultos com psicose ou esquizofrenia: peso, circunferência abdominal, pulso, pressão arterial, glicemia de jejum ou HbA1c, perfil lipídico, prolactina, movimentos anormais, estado nutricional, dieta e atividade física. ECG quando a bula exige ou há risco cardiovascular.

Com que frequência dosar a litemia?

O NICE orienta uma semana após o início, uma semana após cada mudança de dose e semanalmente até estabilidade; depois, trimestral no primeiro ano e semestral a seguir, mantendo trimestral em grupos de maior risco.

Litemia dentro da faixa exclui toxicidade?

Não. Sintomas de neurotoxicidade como parestesias, ataxia, tremor e prejuízo cognitivo podem ocorrer com nível sérico na faixa terapêutica. A litemia deve ser interpretada com horário da coleta, dose, função renal, hidratação e medicamentos concomitantes.

É preciso ECG antes de estimulante para TDAH?

Não de rotina. Quando história e exame cardiovascular são normais e não há medicamento concomitante que aumente risco cardíaco, o NICE não exige ECG antes de estimulantes, atomoxetina ou guanfacina. Pulso e pressão são medidos antes e depois de cada mudança de dose.

Este conteúdo é educacional e dirigido a profissionais de saúde. Não substitui avaliação clínica, diagnóstico ou prescrição.

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